Organizações Melhores para uma Sociedade Mais Complexa
Carlos Damas
Durante grande parte do século XX, as organizações sem fins lucrativos afirmaram-se como um dos pilares fundamentais da resposta a necessidades sociais, educativas e de saúde. Muitas nasceram da iniciativa de cidadãos, profissionais ou comunidades que identificaram problemas concretos e decidiram agir onde os mecanismos tradicionais do Estado ou do mercado não conseguiam responder de forma suficiente.
Ao longo das últimas décadas, estas organizações contribuíram para melhorar a vida de milhões de pessoas. Apoiaram doentes, promoveram investigação, desenvolveram programas educativos, mobilizaram voluntários e criaram redes de solidariedade que continuam a desempenhar um papel essencial nas sociedades modernas.
Hoje, porém, estas instituições enfrentam um contexto profundamente diferente daquele que lhes deu origem.
A sociedade tornou-se mais exigente, os problemas mais complexos e os recursos mais limitados. Simultaneamente, nunca existiram tantas oportunidades para mobilizar conhecimento, tecnologia e participação cívica. Perante esta realidade, importa questionar se os modelos organizacionais que serviram bem estas instituições durante décadas continuarão a ser adequados para responder aos desafios da próxima geração.
Vivemos numa época paradoxal. Nunca tivemos tanto conhecimento disponível. Nunca foi tão fácil comunicar, mobilizar comunidades ou estabelecer redes de colaboração à escala global. Ao mesmo tempo, nunca existiram tantas exigências de transparência, prestação de contas e demonstração de resultados.
A boa vontade continua a ser indispensável. Mas deixou de ser suficiente.
Durante muito tempo, uma missão nobre era frequentemente suficiente para gerar confiança e mobilizar apoio. Atualmente, cidadãos, doadores, financiadores e parceiros institucionais procuram compreender não apenas as intenções de uma organização, mas também a forma como esta utiliza os seus recursos, quais os resultados que alcança e que impacto efetivamente produz.
Esta mudança não deve ser encarada como uma ameaça ao terceiro setor. Pelo contrário. Representa uma oportunidade para reforçar a sua credibilidade, profissionalização e capacidade de transformação social.
As recomendações mais recentes da Comissão Europeia, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e de diversas entidades internacionais apontam precisamente nessa direção. Conceitos como governação, avaliação de impacto, gestão de conflitos de interesse, proteção de dados, sustentabilidade financeira e transparência institucional passaram a ocupar um lugar central na reflexão sobre o futuro das organizações sem fins lucrativos.
A questão já não é apenas quanto dinheiro foi angariado ou quantas atividades foram realizadas.
A verdadeira pergunta passou a ser outra:
Que diferença foi efetivamente feita na vida das pessoas?
Na área da saúde esta transformação torna-se particularmente evidente. Os doentes estão mais informados, os tratamentos são mais complexos, as necessidades mais diversificadas e os recursos mais escassos. Neste contexto, as organizações que pretendam gerar valor terão de aprender a medir resultados e não apenas intenções.
Ao mesmo tempo, a tecnologia está a alterar profundamente a forma como nos relacionamos com o conhecimento e com as instituições.
A inteligência artificial está a tornar acessível informação que há poucos anos exigia horas de pesquisa, formação especializada ou acesso a recursos limitados. Dentro de uma década, uma parte significativa do conhecimento técnico estará disponível de forma praticamente instantânea para profissionais e cidadãos.
Mas talvez o verdadeiro desafio não seja o acesso à informação.
O verdadeiro desafio será transformar conhecimento em ação.
A sociedade já dispõe de conhecimento suficiente para prevenir muitas doenças, reduzir complicações evitáveis, melhorar a adesão terapêutica e promover estilos de vida mais saudáveis. Apesar disso, continuam a existir dificuldades significativas na implementação das soluções que já conhecemos.
É precisamente aqui que as organizações do futuro poderão desempenhar um papel decisivo.
Menos focadas em transmitir informação e mais focadas em criar condições para que essa informação produza mudança real.
Menos orientadas para eventos isolados e mais orientadas para resultados mensuráveis.
Menos centradas em estruturas fechadas e mais abertas à colaboração entre profissionais de saúde, universidades, empresas tecnológicas, instituições públicas e sociedade civil.
Talvez a grande oportunidade da próxima década não esteja em criar mais organizações, mas em construir organizações melhores.
Organizações capazes de combinar proximidade humana com rigor de gestão.
Capazes de utilizar tecnologia sem perder de vista as pessoas.
Capazes de prestar contas sem perder a capacidade de inovar.
Capazes de medir impacto sem esquecer que por detrás de cada indicador existe sempre uma pessoa, uma família ou uma comunidade.
Num mundo cada vez mais complexo, a confiança tornar-se-á um dos recursos mais valiosos. E a confiança constrói-se através de transparência, responsabilidade, competência e resultados.
Acredito que este será um dos debates mais importantes dos próximos anos. Não apenas para as associações sem fins lucrativos, mas para todos aqueles que procuram encontrar novas formas de responder aos desafios sociais e de saúde de uma sociedade em rápida transformação.
Bibliografia
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